Através da noite a tempestade desaba à beça
e bate com força na janela a água que o céu arremessa.
Com chuva na cabeça da tempestade que despenca,
fito os olhos, sem pressa, na sombra dela,
que projeta o perfil dos seus seios na cortina espessa.
Através da noite até que o dia amanheça
cuido sua janela, esperando que eu mereça
que ela acorde e saia na sacada,
na chuva fica mais bela,
e me veja na guia encharcada.
Através da noite pode até ser que eu adoeça
aqui fora no meio da chuva,
rezando para que um convite aconteça
para eu entrar na casa que ela mora
e, perto da brasa da lareira que chamusca,
guardar o sono dela até altas horas.
Através da noite pode até ser que eu apareça
no próximo enredo dos sonhos dela,
com frio e molhado debaixo da sua janela.
A água que despenca não cessa,
me mete medo e faz com que eu enfraqueça
imaginar segredos que ela não confessa.
Através da noite densa
com o lento ritmo d´água
as trevas acendem minha angústia imensa.
E choveu desde o primeiro momento,
engolindo seco minha mágoa,
sedento vou morrendo.
Através da noite molhada
abro mão da luz do novo dia.
Luz amarela que o sol irradia
renuncio por minha amada.
Abro mão do clarão dos meus dias
pelas noites na guia encharcada.
Vago através da noite calada
esperando debaixo da janela.
Espero por ela diante da sacada,
varando a madrugada solitária dentro,
sob o bruxulear de uma esperança singela,
sob a luz morta de uma simples vela,
somente guardando o sono dela.