Um bafejo de vento soprando, soprando tanto.
Durante a longa viagem de volta prá casa de campo,
adormeci entre grandes nuvens brancas flutuando.
Sonhei lances foscos riscando traços de retratos
e meus poucos amigos aparecendo lado a lado.
Um bafejo de vento soprando, e soprou no tempo, e soprou tanto.
Um bafejo de vento soprando, soprando tanto.
Com a imagem embaçada visualizei, entre partes, os cantos
da sala onde passamos muitas tardes cantando acalantos.
Nós todos juntos olhando e sentindo a chuva na sacada,
sorrindo e cantando até as últimas horas da madrugada.
Um bafejo de vento soprando, e soprou no tempo, e soprou tanto.
Um bafejo de vento soprando, soprando tanto.
À margem direita do fogão ficávamos conversando,
e preenchia a imensidão o cheiro de café exalando.
Sem desejar nada, no entanto, muito profundo,
apenas risadas e acalantos dos cantos do mundo.
Um bafejo de vento soprando, e soprou no tempo, e soprou tanto.
Um bafejo de vento soprando, soprando tanto.
Escondendo da friagem no abrigo dos nossos corações brandos,
nunca pensamos realmente que o tempo poderia estar passando.
Achávamos que o tempo poderia parar naquele instante,
mas para isso não havia nenhuma chance relevante.
Um bafejo de vento soprando, e soprou no tempo, e soprou tanto.
Um bafejo de vento soprando, soprando tanto.
Imaginem pé na estrada e estradeiro de pó flutuando,
na boléia do caminhão ou na poeira levantada caminhando.
Nossa vida era pedra, terra, estrada
e nada nos espalharia no meio dessa jornada.
Um bafejo de vento soprando, e soprou no tempo, e soprou tanto.
Um bafejo de vento soprando, soprando tanto.
A passagem dos anos ao passo de um abismo, e passando.
Os ventos soprando a poeira, os amigos na poeira soprando.
E outros caminhos se abrindo para ir seguindo em frente,
e todos sumindo para nunca mais serem vistos novamente.
Um bafejo de vento soprando, e soprou no tempo, e soprou tanto.
Um bafejo de vento soprando, soprando tanto.
A estiagem das estações secando a fartura dos anos.
Os dias estão contados, não há muito mais sobrando.
Apenas miragens longínquas de um tempo distante
aparecem como um oásis para meus dias restantes
Um bafejo de vento soprando, e soprou no tempo, e soprou tanto.
Um bafejo de vento soprando, soprando tanto.
Um bafejo de vento soprou um desejo, e eu desejo tanto
o cheiro de café, a poeira das estradas, as conversas de canto.
Ou somente ficar olhando a chuva solitária cair na sacada,
sorrindo e cantando até a última hora se esvair na madrugada.
Um bafejo de vento soprando, e soprou no tempo, e soprou tanto.
Um bafejo de vento soprando, soprando tanto.
Um bafejo de vento soprou um desejo, e eu desejo tanto
voltar ao tempo em volta da mesa e ficar até tarde cantarolando.
Mas como não posso vasculhar os escombros da história,
então que meus olhos vasculhem nos escombros da memória.
Um bafejo de vento soprando, e soprou no tempo, e soprou tanto.